quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Meus pais estão com 65 e 70 anos. O mais velho é meu pai. Podem durar mais vinte anos, eu sei. Mas pela primeira vez na vida comecei a pensar na morte deles. O problema é que eles envelheceram e eu não. Eu continuo com 12, 13 anos. Firme e piadista por fora…mas assustadíssima e carentíssima por dentro. Mas onde quero chegar com tudo isso? Não quero chegar, quero voltar. Quero voltar pro útero de mamãe e me dividir em duas. E me dar um irmão. Alguém nesse mundo que possa se trancar comigo em um banheiro improvável e chorar porque, um dia, nossos pais vão simplesmente desaparecer. Eu tenho amigos, muitos. Eu tenho uns parentes por aí também. Mas não tem jeito, eu sou ridiculamente sozinha nessa vida. Eu sei, tem gente que tem irmão e nem olha na cara dele. Eu sei, nossos irmãos de verdade são os nossos amigos. Mas não é de uma amizade pura e perfeita e presente que estou falando. Eu estou falando de existir mais alguém nesse mundo que, um dia, divida comigo essa dor incomensurável de perder um pai ou uma mãe. Saber que a história da minha infância se encerra em mim é tão terrível que acho que virei escritora por isso. Talvez se eu me contar, eu exista. Talvez se eu me lembrar, eu exista. Ter um irmão é ter, pra sempre, uma infância lembrada com segurança em outro coração.

(Tati Bernardi)

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