quarta-feira, 14 de outubro de 2015

As amigas, aquelas, as ex ;

Elas vem de um passado remoto, de uma longa distância de palavras, da saudade de uma roupa trocada ou das novidades que a gente nunca conta porque contato depois que é perdido não se recupera de uma hora pra outra. De uma foto antiga, do nada, do limbo onde boas amizades se perdem por causa de namorados, mal entendidos, viagens mal aproveitadas ou falta de afinidades que foram apagando a importância ao longo dos anos. Chegam num perfume que o olfato logo decifra, brotam num domingo correndo pelo parte, assombram segredos que nunca ousamos confiar a ninguém mais que mesmo velhos seriam capazes de corar o rosto e nos deixar com a faixa de ridícula do milênio se à tona. 

Elas vivem na rua de cima, no mesmo bairro, naquela escola do primeiro grau, numa casa noturna onde muito já se badalou, perdidas por aí sem saber do nosso animalzinho de estimação novo ou da reforma lá de casa. Longe, porque no rompimento, sempre silencioso, as entrelinhas prenunciavam uma distância sempre maior que o aceitável. Sobreviventes a cada conversa com pais e mães que encontramos no supermercado da esquina, remanescentes das maluquices compreendidas apenas entre dois olhares cúmplices que se perdem sempre pelos saguões da vida.

Elas se alimentam de fofocas infundáveis, de catações crônicas a respeito da outra, daquilo que imaginam estar acontecendo e talvez não seja nada perto da realidade: a intuição, o banco de memórias, a essência já tão manjada dizem algo sobre aquela frase, os novos amigos em comum, as gentes com quem ela anda agora. O namorado novo é feio, o outro era gato mas filho da puta, eles nem devem transar, nossa, mas ela emagreceu, ano passado tava uma bola, se eu ver por aí acho que ignoro. Se entopem de suposições pra vomitar, envenenadas, embriagas de ressentimento e carentes de uma atenção sem volta pelos cantos de botecos e corredores de faculdade, bem dentro do ouvido alheio. 

Elas fazem tai chi ou começaram a aprender piano, elas já nos viram sem roupa e com sonhos despedaçados, elas se ressentem a cada passo gigante que a gente consegue dar por não poder participar da comemoração. E doem porque todos ensinaram, o mundo nos prometeu: amores se vão, mas as amigas, elas ficam - só que boa parte delas passa a residir na vida da gente apenas na lembranças, nos VHS, até onde as festas infantis e as reuniões dançantes suportam.

Elas adormeceram num tempo conjugado no passado, elas são vítimas de resgates nunca bem sucedidos, elas reproduzem uma playlist antiga cheia sucessos dos anos 90 e 00', elas se mudaram pra um planeta onde a gente não cabe mais e hoje respiram sob destroços e lama, rinite alérgica e roupas cafonas. 

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Maira Gall