quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A alma é sábia: enquanto achamos que só existe dor, ela trabalha, em silêncio, para tecer o momento novo. E ele chega.

Ana Jácomo



Mulher gosta de equilíbrio entre o carinho e a malícia. Entre o espaço e saber estar junto. Entre o segurar de mão e o apertar de cintura.

Eu sempre estive entre aspas. Ficar triste é um sentimento tão legitimo quanto a alegria. Reclamar do tédio é fácil, difícil é levantar da cadeira pra fazer alguma coisa que nunca foi feita. Queria não me sentir tão responsável pelo que acontece em meu redor. Felicidade é a combinação de sorte com escolhas bem feitas. Pessoas com vidas interessantes, interessam-se por gente que é o oposto delas. Emoção nenhuma é banal se for autêntica. Dar certo não está relacionado ao ponto de chegada, mas ao durante. O prazer está na invenção da própria alegria, porque é do erro que surgem novas soluções, os desacertos nos movimentam, nos humanizam, nos aproximam dos outros. Enquanto o sujeito nota dez, nem consegue olhar pro lado, sobe pena de ver seu mundo cair. O mundo já caiu, só nos resta dançar sobre os destroços. Nosso maior inimigo é a falta de humor.

É preciso não esquecer nada: nem a torneira aberta nem o fogo aceso, nem o sorriso para os infelizes, nem a oração de cada instante. É preciso não esquecer de ver a nova borboleta nem o céu de sempre. O que é preciso é esquecer o nosso rosto, o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, a ideia de recompensa e de glória. O que é preciso é ser como se já não fôssemos, vigiados pelos próprios olhos severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Quem vive com o coração na mão aprende de uma maneira ou de outra que amadurecer dói. Não é questão de escolha despedir-se do que se era e abraçar o que se é. E para reconstruir, antes é preciso estar em pedaços. A mudança não pede pra acontecer. Às vezes aperta, rasga, corta. Transformar-se é um ato de coragem.

Por que eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Por que eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.
© adorável psicose
Maira Gall